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Passando do ouvir para o escutar: a transformação da participação pública no processo orçamental do Quénia

Kenya Blog

Num recente encontro informal da CABRI na África do Sul, foi abordado um tema recorrente entre os profissionais da gestão das finanças públicas (GFP): a era do business as usual, ou das práticas habituais, na elaboração dos orçamentos foi ultrapassada. No Quénia, em 2024, o nosso mais recente ciclo orçamental sofreu uma “pausa forçada” inesperada. Embora as nossas estimativas de despesas tenham sido aprovadas, o projecto de lei das finanças que as acompanhava, e que rege o financiamento do orçamento, sofreu uma forte oposição pública e acabou por ser chumbado, provocando um défice significativo de financiamento.

Esta suspensão serviu para nos lembrar de uma verdade fundamental nas finanças públicas: em princípio, os cidadãos não se opõem a pagar impostos; exigem, sim, uma articulação clara e justificável entre o que é cobrado e o que recebem.

O fosso entre a transparência e a compreensão

Durante décadas, os ministérios das finanças em África subsaariana, e não só, têm visto a participação pública principalmente como um requisito processual. Publicamos declarações abrangentes sobre a política orçamental, disponibilizamos documentos técnicos complexos nos nossos portais e achamos que cumprimos os requisitos. No entanto, tal como demonstrou a nossa recente experiência no Quénia, existe uma diferença profunda entre simplesmente ouvir o público e escutá-lo activamente.

Revelou, sem sombra de dúvida, que a transparência sem compreensão gera desconfiança. Neste sentido, quando o jargão técnico do Tesouro Nacional não satisfaz as realidades quotidianas dos cidadãos, é inevitável que haja oposição a medidas que visam aumentar as receitas. Enquanto técnicos, presumimos que, ao disponibilizar os dados, o público irá perceber as limitações orçamentais com que nos deparamos. Na realidade, o ónus cabe a nós, enquanto profissionais, de preencher essa lacuna de comunicação.

Entrando nos “Parlamentos do Cidadão”

Um dos temas que suscitou grande interesse durante o painel da CABRI foi a concertação entre o Secretário de Estado do Tesouro Nacional, o Exmo. John Mbadi Ng'ongo, com o Bunge la Mwananchi (Parlamentos do Cidadão). Os Bunge la Mwananchi não são estruturas formais do Estado, mas sim fóruns orgânicos, organizados pelos próprios cidadãos, que existem em cidades e aldeias por todo o país. Assim, o Secretário de Estado, ao participar nestes fóruns, permite aos cidadãos debaterem questões financeiras sem o habitual jargão técnico.

No passado, o Tesouro poderia ter descurado as reuniões com as bases e optado por salas de reunião formais. Hoje, entramos de boa vontade nesses espaços. Os nossos superiores e técnicos reúnem-se com esses grupos, associações estudantis e actores locais para explicar o “porquê” dos números. Explicamos as realidades macroeconómicas - detalhando as nossas obrigações de serviço da dívida, as metas de receita e os limites de despesa - numa linguagem que o cidadão comum perceba. Trata-se de um exercício de vulnerabilidade e responsabilidade, mudando a dinâmica de uma directiva descendente para um verdadeiro diálogo bidireccional.

O orçamento Mwananchi: associando a receita à despesa

Para dar efeito a esta mudança, reformulámos por completo a forma como divulgamos a informação orçamental. A introdução do Orçamento Mwananchi (orçamento do cidadão) conjuga os planos de despesa e as medidas destinadas a aumentar as receitas num único folheto de fácil acesso. Queremos que os cidadãos percebam a correlação directa entre os impostos propostos e os serviços públicos financiados. Se estes dois elementos forem apresentados isoladamente, essa desconexão alimenta a oposição.

Ademais, reconhecemos que a verdadeira responsabilidade exige juntar um rosto aos números. Durante as auscultações públicas do grupo de trabalho sectorial, já não é aceitável apresentar estimativas gerais sem prestação de contas directa. Nos dias que correm, os responsáveis pelos orçamentos específicos de cada sector devem estar presentes fisicamente e são eles que apresentam as propostas do sector. Quando um cidadão coloca uma questão sobre uma dotação departamental, o respectivo responsável deve poder responder directamente. Isto permite desmistificar o processo e reforçar o facto de que pessoas reais são responsáveis por estes recursos públicos.

Apoiar a participação com integridade sistémica

É evidente que a participação pública deve ser acompanhada de integridade sistémica. Os cidadãos perdem rapidamente a confiança se os seus comentários revelarem ineficiências que o sistema não está à altura de corrigir. É por isso que estamos a integrar de forma dinâmica as nossas estruturas internas, ao associar o nosso sistema electrónico de Contratação Pública (e-GP) ao nosso Sistema Integrado de Informação de Gestão Financeira (SIIGF) e ao padronizar as nossas ferramentas de cálculo dos custos. Quando um cidadão questiona uma variação numa aquisição ou um atraso num projecto, os nossos sistemas integrados devem proporcionar um quadro imediato e susceptível de ser auditado para garantir equidade e a eficiência.

O caminho a seguir para a GFP em África exige que saiamos do conforto dos nossos silos técnicos. Os choques que vivemos - sejam eles provocados por políticas de coligação, como a experiência recente dos nossos colegas na África do Sul, ou da rejeição pública de projectos de leis das finanças - não são meras anomalias, mas sim eventos catalisadores da reforma necessária. Ao transformar a participação pública de um requisito legal numa verdadeira parceria consultiva, criamos o instrumento crucial necessário para o sucesso de qualquer política orçamental: a confiança pública.

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