O sistema de gestão finanças públicas (GFP) da África do Sul tem evoluído com o tempo para um quadro institucional bem estabelecido que fomenta o planeamento, a execução e a supervisão orçamental. Os resultados do Inquérito da CABRI de 2025 sobre Práticas e Procedimentos Orçamentais (BPP) revelam que o sistema de GFP da África do Sul é caracterizado por maturidade institucional, com bases sólidas em matéria da transparência orçamental, documentação e supervisão parlamentar, apoiadas por uma função bem estabelecida de estudos parlamentares. Concomitantemente, o inquérito aponta para algumas áreas a que merecem atenção contínua, entre as quais a fraca articulação com a Comissão de Contas Públicas, sugerindo um acompanhamento irregular das constatações das auditorias por parte do órgão legislativo, apesar do mecanismo robusto de transparência e responsabilização do país.
Importa referir que a arquitectura técnica do sistema orçamental da África do Sul manteve-se praticamente inalterada nos últimos anos. A mudança mais significativa ocorreu no contexto político em que o sistema orçamental se insere. Mediante a proeminência das políticas de coligação e a transformação da dinâmica política, as decisões orçamentais assumiram um contorno mais orientado para a negociação, exigindo mais consulta, consenso e coordenação entre actores políticos e institucionais antes de os orçamentos serem finalizados e apresentados.
Durante quase três décadas após a transição democrática de 1994, a arquitectura da GFP na África do Sul terá sido caracterizada por um cenário político previsível. O orçamento era preparado, em grande parte, com base numa afectação incremental, um sistema em que os parâmetros definidos para cada ministério eram automaticamente aplicados e ligeiramente ajustados todos os anos.
Mas a lentidão do crescimento económico na última década veio a impactar a viabilidade deste modelo. Conjugado com a histórica mudança para um governo de coligação, o sistema orçamental do país registou um ponto de viragem importante: como gerir recursos finitos face às divergências entre os partidos políticos quanto à visão relativamente à política orçamental.
1. O choque político e económico na GFP
O quadro democrático da GFP da África do Sul foi originalmente concebido tendo em vista a reconstrução de uma nação fragmentada. Volvidos trinta anos, o orçamento incremental deixou de ser viável face à estagnação do crescimento económico.
A introdução de um governo multipartidário trouxe agendas políticas variadas para o governo e o parlamento.
- Abordagens económicas distintas: Frequentemente, geram-se conflitos entre os membros da coligação em relação aos princípios fundamentais. Enquanto alguns defendem a contenção rigorosa da dívida e o equilíbrio da relação dívida/PIB, outros argumentam que a estabilização da dívida não pode ter primazia sobre os desafios prementes da prestação de serviços.
- Expectativas iniciais vs. realidade: A expectativa era que a inclusão dos partidos de coligação no governo viesse a agilizar o consenso em torno da estratégia orçamental. Na prática, os debates acesos e as fricções provocaram vários atrasos ao processo orçamental de 2025.
Estas pressões de carácter político e económico trouxeram à tona um imperativo: impunha-se a rápida adaptação do processo orçamental para fazer face à política multipartidária.
2. Acelerar a reforma: a consulta como instrumento de estabilidade
De forma a ultrapassar as fricções dentro da coligação, o Tesouro Nacional acelerou as reformas estruturais orçamentais ao encetar consultas amplas e acções de sensibilização acerca do orçamento. Se os principais intervenientes, tanto do executivo como na sociedade civil, não compreenderem ou não aderirem à estratégia orçamental, a implementação estagna.
Principais ajustamentos institucionais introduzidos:
- Sensibilização acerca da estratégia orçamental: A política orçamental deixou de ser um documento puramente técnico redigido à porta fechada. Agora, são realizadas amplas sessões de informação e consultas através linhas partidárias para fomentar o consenso tão cedo quanto possível.
- Aval, pelo Conselho de Ministros, das linhas orientadoras do QDMP: Para evitar oposição nas fases finais, o Conselho de Ministros agora aprova formalmente as linhas orientadoras e o calendário orçamental do Quadro de Despesas de Médio Prazo (QDMP) antes de os ministérios apresentarem as suas propostas de orçamento.
- Digitalização do calendário orçamental: Todo o processo está agora digitalizado, com marcos rigorosos e uma visibilidade clara de cada etapa da preparação orçamental para todas as partes.
- Institucionalização da concertação pública: A participação pública passou de um exercício cívico “agradável de ter” para um mecanismo crucial para legitimar as decisões de despesa difíceis pelo governo de coligação.
3. Poupanças visadas e responsáveis: introspecção
Face a um envelope financeiro rígido, os ministérios deixaram de simplesmente poder exigir mais financiamento para novos mandatos. O Tesouro introduziu a iniciativa de poupanças visadas e responsáveis (TARS), ancorada na Matriz de Avaliação de Programas (PAM).
Mudança de paradigma: Os ministérios devem utilizar a PAM para avaliar as suas dotações em vigor antes de solicitar novos financiamentos. Em vez de perguntar “O que pode o orçamento nacional fazer por nós?”, os ministérios devem perguntar : “Como podemos rever as nossas prioridades dentro dos parâmetros existentes?”.
| Objectivo da Reforma | Impactos práticos |
|---|---|
| Eliminação de ineficiências | O debate mudou de foco para as ineficiências – têm sido envidados esforços estruturais para limpar as folhas salarias dos ministérios, eliminar os trabalhadores fantasma e erradicar a duplicação dos benefícios sociais. |
| Normalização das regras orçamentais | O conceito de regra ou âncora formal (para evitar a acumulação de dívida) passou de ideia e tem ganhado força como um amortecedor necessário. |
| Transparência orçamental | O acompanhamento digitalizado e a intervenção precoce reduziram as surpresas de último minuto durante o exame legislativo. |
4. O horizonte: desafios pendentes e temas em evolução
Embora os choques políticos tenham forçado uma modernização há muito necessária, mantêm-se obstáculos estruturais:
- Crescimento lento vs. elevada necessidade: A gestão do espaço orçamental reduzido gera volatilidades inerentes. Numa coligação, todas as partes exige o que pensa ser uma prioridade.
- Escrutínio e coesão legislativa: O equilíbrio do orçamento face às dificuldades de prestação de serviços continuará a pôr à prova os sistemas de supervisão do parlamento.
- Manter a confiança pública: Com a institucionalização das consultas públicas, o governo deve aproveitar a oportunidade para introduzir novas ideias.
Conclusão
De início, a transição para o governo de coligação ameaçou desestabilizar as finanças públicas da África do Sul devido a fricções políticas. No entanto, em última análise, serviu de elemento catalisador para a reforma. Ao forçar o sistema a afastar-se do orçamento incremental e a adoptar revisões internas rigorosas, fluxos de trabalho digitais e uma consulta alargada, as práticas de GFP estão a evoluir para responder às exigências complexas da democracia multipartidária.
